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21 de Fevereiro de 2022

Mais um caso de racismo acontece, desta vez na loja Reserva no Shopping Barra de Salvador, na Bahia.

A marca foi acusada de racismo pelos clientes por ter colocado um manequim preto quebrando a vitrine em uma ativação para divulgar uma liquidação.

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Várias pessoas começaram denunciar o caso nas redes sociais acusando a Reserva. De acordo com o perfil do Instituto Luiz Gama no Instagram, a marca disse que o manequim era para representar uma pessoa correndo para a liquidação.

Após manifestações negativas, a loja retirou o manequim na terça-feira 15 e informou que o boneco fazia parte da vitrine chamada de “Loucuras pela Reserva” e que “não teve como objetivo ofender qualquer pessoa ou disseminar ideias racistas.

O Ministério Público da Bahia notificou a grife Reserva a prestar esclarecimentos de acusação de racismo.

A discussão racial ocorre uma semana depois de uma loja do Hangar das Artes, no Aeroporto Internacional de Salvador, ter se envolvido em meio à polêmica venda de suvenires de cerâmica com representações de pessoas negras anunciadas como escravos.

Em nota, a Reserva afirma que a vitrine com o boneco entrando pela parte de fora "(o mesmo sempre usado normalmente do lado de dentro da vitrine) jamais teve como objetivo ofender qualquer pessoa ou disseminar ideias racistas e sim de somente divulgar a liquidação da marca". A Reserva comunicou que repudia "o racismo em todas as suas formas de expressão".

"A diversidade e inclusão são valores essenciais de nossa marca", afirma.

Segundo a assessoria, o manequim só foi retirado nesta quarta (16) por ter sido o dia em que a marca tomou conhecimento da repercussão e que a campanha não havia sido bem recebida. A Reserva frisou que todos os manequins da marca são pretos.

Pelo Instagram, a grife respondeu a internautas de várias partes do Brasil que a ação promocional "Loucuras da Reserva" visava divulgar a liquidação da marca, mas que não teve como objetivo ofender qualquer pessoa ou disseminar ideias racistas.

Após a exposição da ação de marketing da loja em Salvador, internautas inundaram o post mais recente da marca, feito na última terça, com críticas que passaram a questionar a grife sobre o que consideravam um ato de racismo.

Inicialmente, a Reserva passou a responder aos questionamentos por meio de directs -mensagens privadas-, mas a cobrança passou a ser para que a grife tornasse públicas as respostas no perfil da marca, o que aconteceu.

"E aí, Reserva, não vai se posicionar sobre sua nova vitrine com um manequim negro entrando pelo vidro da loja, como se fosse roubar? Racismo! Absurdo!", questionou o perfil de Mila Chaves Quaresma.

O perfil de Nicole Rust questionou a demora da grife em responder às críticas, passadas horas após a repercussão negativa da ação, enquanto, ao mesmo tempo, a marca retornava aos clientes que elogiavam os produtos.

"Vocês passaram o dia recolhendo os elogios e ignorando quem buscou posicionamento. Desmontar a vitrine que nunca deveria ter sido montada em pleno 2022, sim era o óbvio, mas mantenham o respeito ao cliente e não os deixem no vácuo."

Para Jan Belmiro, a grife respondeu que a liquidação com um manequim entrando pelo vidro da loja, prestes a "fazer loucuras pela Reserva", ocorre desde 2016, e disse que repudia todas as formas de preconceito e o racismo em todas as suas expressões.

O Shopping Barra, onde a vitrine da Reserva foi instalada, anunciou a criação de um Comitê da Diversidade, que deve iniciar as atividades ainda em 2022.

Entre as ações previstas, estão a contratação de uma consultoria, uma cartilha de conscientização, treinamentos com orientações, debates, insights para campanhas, além de um cronograma que englobe o calendário da diversidade.

A Promotoria informou que, como procedimento está em fase inicial, a promotora de Justiça responsável pelo caso, Lívia Vaz, que atua na área de Combate ao Racismo, por enquanto, não concederá entrevistas.

Em pouco tempo, a publicação viralizou entre usuários da plataforma. “Eu nem tinha reparado na vitrine até que uma senhorinha negra passou do meu lado e falou pra si mesmo: que horror!” afirmou o autor do post. “Não cansam de produzir material preconceituoso disfarçado de ‘não tínhamos a intenção, vcs entenderam mal’”, disse outra usuária. 

Como resposta, a grife carioca compartilhou a polêmica em sua página oficial do Facebook, dizendo que o autor do post não teria reparado que o nome da marca também estava de ponta cabeça.

Atitudes publicitárias que se repetem

Infelizmente não se trata do primeiro, nem do último caso de racismo dentro do mercado de publicidade e marketing.

A Bombril tinha em seu portfólio, desde a década de 1950, a esponja de aço “Krespinha”, que fazia uma referência ao tipo de cabelo crespo, uma ofensa racista famosa no Brasil, que fazia uma relação com os fios metálicos. 

No início, a marca paulistana utilizou também um desenho com uma personagem negra para a propaganda do produto, que era exibido no site como “ideal para limpeza pesada”.

O casou gerou indignação entre usuários do Twitter e ativistas negros, que fizeram pressão na marca e fizeram a hashtag “BombrilRacista” chegar ao topo dos trending topics da plataforma. 

A Bombril soltou uma nota oficial com um pedido de desculpas, dizendo que o produto seria retirado do portfólio, e que daria início a um ciclo educativo na empresa, investindo em conhecimento antirracista que faça com que esse tipo de prática acabe em sua cadeia de negócios.

A marca de papel higiênico Personal, propriedade da Santher, recebeu duras críticas por ter utilizado, em 2017, um slogan que é tradicionalmente associado ao movimento negro e à valorização da beleza dos corpos negros, para uma ação publicitária de um novo tipo de papel higiênico preto. 

O slogan usado foi o “Black is beautiful”, ou “preto é lindo”, em tradução livre.

O fato de uma marca de papel anunciar um novo produto de higiene básica se apropriando de um símbolo de luta do movimento negro, utilizado desde os anos 1960 para acabar com estereótipos racistas, foi recebido com indignação por especialistas na questão. 

O problema reside na apropriação e redirecionamento do slogan para um objetivo totalmente diverso do original. 

Como se não bastasse a escolha do slogan, a modelo selecionada para estrelar a peça de vídeo foi Marina Ruy Barbosa, uma atriz branca.

A empresa mudou de ideia, e cancelou a utilização do slogan. Ainda no final do mesmo ano, foi divulgado o encerramento das atividades da agência de publicidade encarregada pelo conceito da campanha, a Neogama, por assuntos que não estariam diretamente relacionadas à propaganda em foco.

Em um comercial de Natal de 2018, a Perdigão trouxe duas famílias para anunciar uma promoção em que cada cliente que adquirisse um chester a marca doaria outro para “quem precisava”.

Na propaganda, a família necessitada era formada por pessoas negras, que faziam uma ceia simples, em uma casa simples, enquanto a família “provedora” era branca, que vivia em uma casa luxuosa repleta de comida e amplamente decorada. 

Na mesma hora, ativistas negros denunciaram os problemas da ação publicitária: reforços de estereótipos, de que as famílias negras estão sempre em situação de vulnerabilidade e passividade recebendo a ajuda dos brancos.

A Perdigão reagiu pedindo desculpas.

Esta também não foi a primeira vez em que a Reserva foi acusada de racismo. No começo de 2016, um usuário do Facebook compartilhou uma foto em que dois manequins negros são mostrados pendurados pelos pés na vitrine de uma das unidades da marca, no Rio de Janeiro.  

Tags: Marketing publicidade reserva racismo ativacoes